BARCOS AMAZÔNICOS


Através de uma série de cinco filmes sobre os diferentes tipos de utilização dos barcos que navegam nos rios da Amazônia paraense, transportando madeira, peixe, pessoas, cerâmica e gado, o cineasta Chico Carneiro mostra a vida dos homens que trabalham nessas embarcações e a realidade dos que vivem nas ribeiras desse Mar Doce. E, a beleza da região, o extrativismo vegetal, a degradação ambiental e como esse meio de transporte subsiste graças ao desprendimento desses homens, que não dependem de apoios governamentais para criarem, com pujança, a base de sua subsistência econômica e do comércio fluvial paraense.

Por Carlos Pará, Fotos: Chico carneiro

No primeiro filme da Série,  “Seu Didico - Velho Macho” registrou ao longo de 2 semanas em 2 viagens feitas no barco “Samaria”, o cotidiano e o processo de quem vive na Amazônia do transporte da madeira.
O fluvimovie começa pela cidade de Inhangapi, pequena cidade à beira de um bonito rio do mesmo nome, a 17 kms de Castanhal (PA), cidade a 70 kms da capital paraense, na rodovia que liga Belém a Brasília. Em Inhangapi existe um porto de descarregar madeira, tijolos e telhas, que vêm de diferentes zonas do Pará, para abastecer o comércio de Castanhal e outras cidades do interior. Ali foi o porto/ponto de partida e de chegada.
Chico Carneiro e seu irmão, o fotógrafo Amilcar Carneiro, zarparam em condições pouco confortáveis debaixo de chuva e pequena acomodação dentro do barco. Comiam o mesmo rango da tripulação, peixe, caça, carne com arroz e feijão e claro, como não poderia faltar, o alimento básico da região, o açaí. Dormiam no barco ancorados em algum lugar da região sob as nuvens e as estrelas aos sons da mata ou às vezes sob o som de morcegos que aninhavam-se no enorme Buritizeiro ao qual o barco ficara amarrado.
Parando nas cidades de Bujarú, Belém, Igarapé-Miri, passaram pelos Rio Mojú, Rio Acará, Rio Igarapé Miri, Rio Caji, Rio Meruú l, Rio Guamá, furos, igarapés, veias abertas de florestas, todos com a paisagem típica do interior da Amazônia: floresta, palafitas, açaizais um ou outro barco a motor e a população em pequenas canoas, rabetas...


Seu Didico o protagonista do filme, com uma larga experiência de navegação, tinha a tranquilidade de quem conhece o seu metier, e sabia que a atenção permanente é a garantia de uma viagem segura. Nenhum detalhe relacionado com a segurança escapava ao seu permanente e atento olhar. Nesse trajeto foram feitas as entrevistas com ele pegando o depoimento de quem trabalhava no barco viajando pelos rios comercializando a madeira em forma de ripas, ripão e pernamancas, de madeiras comuns na região como a Cupiúba e Anani. A madeira carregada em seu barco perfaz-se em 9 toneladas que é a capacidade do barco. O “Samaria” tem uma capacidade de carga de 18 toneladas. Esse total só é conseguido acondicionando madeira também fora do porão, no convés, prática ilegal mas comum aos barcos que transportam madeira na região.


A viagem do filme revela o percurso que a madeira atravessa até ser processada para a venda. Desde a sua retirada, o transporte em jangadas, o empilhamento em toras na beira dos rios, corte e laminação, até serem carregadas para o barco e desembarcadas nos portos. Cenas do filme mostram a madeira sendo carregada pelos trabalhadores rolando os troncos do rio para a serraria e, nesta, procedendo ao corte das toras, transformando-as em tábuas. Tudo manualmente. No igarapé Felipequara (estreito e cheio de curvas, mas de águas limpíssimas), cenas oníricas do transporte de toras pelo igarapé, indo das matas para as serrarias. Levadas por jangadas, toras de madeiras flutuando para seu destino final, inusitado meio de transportar a madeira em que o documentarista ia registrando e fazendo malabarismos para pegar diferentes ângulos do cortejo vegetal.

Mesmo com chuva o carregamento do barco não para. As filmagens eram rodadas mesmo em baixo de chuva e depoimentos como o do sr. Zé Melquides nos mostram o conhecimento sobre a vida e as condições sociais e econômicas que vivem os povos da amazônia, verdadeira filosofia de um povo que sobrevive sem as amarras do Estado e que sabem e pensam perfeitamente sobre a condição humana que lhe foram submetidas.
O seu primeiro trabalho profissional em cinema, como assistente de câmera, foi no antológico “Iracema” (Bodanzky-Senna, 1974),clássico filme que narra a história do impacto provocado  pela rodovia Transamazônica (BR-230), projetada durante o governo militar, do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969 a 1974), considerada uma “obra faraônica”, cortando sete estados brasileiros: Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.
No Pará e no Amazonas, a rodovia não é pavimentada e o que foi a grande rota do progresso e justificativa para a ocupação territorial na Amazônia é um grande descaso público e uma grande ferida na selva amazônica, um entrave para o desenvolvimento regional onde a grilagem impera, a degradação humana com a prostituição, a malária e o trabalho escravo e da natureza com as paisagens do desmatamento, queimadas e devastação.
A relação do social e do ambiental abordado pelo cinema foi o inicio da formação deste cineasta que procura revelar a realidade da Amazônia em que vivencia em seus filmes  e que revive nela.

Dramaticamente interfiro o mínimo possível nos acontecimentos evitando a repetição de uma situação, só o fazendo quando considero determinada ação importante para a compreensão da história e não consegui obte-la quando ela realmente aconteceu; se em uma determinada cena há um problema de falta de foco, ou a câmera tremeu, não a repito, a não ser que não tenha conseguido filmar o assunto que me interessa; esteticamente não estou preocupado com continuidade dramática ou visual “certinha”, e sim com a transmissão de emoção, em suas variadas matizes.




A estética que percorre é construída num caminhar cinematográfico profissional – totalmente empírico - cedo envereredou pela trilha de querer fazer um Cinema de cunho mais social, ou político. Isso deveu-se não somente ao tipo de Cinema no qual esteve envolvido mas certamente, e sobretudo, pela sua visão social do mundo. Que o Cinema só fortaleceu.
 “Subimos o igarapé durante 1 hora e meia e era impressionante ver o quanto suas águas eram limpíssimas, e o quanto a mata, em muitos pontos, era cerrada, com o igarapé espraiando-se em várias direções de tal modo que muitas vezes perdíamos a noção de onde estávamos (onde a inevitável pergunta: como aqueles homens conseguiam transportar a madeira por aquele caminho que, muitas vezes, parecia não ter espaço suficiente para as toras passarem?). Foi uma visão impressionante: várias canoas com diversas toras amarradas de ambos os lado, com um ou dois homens em pé sobre as toras utilizando varas para movimentá-las e controlá-las, desciam o curso de água ao lento sabor da correnteza e em meio a uma permanente troca de palavrões que funcionava como uma brincadeira entre eles e quebra da monotonia. Depois de filmá-las a partir da nossa canoa passei para uma das canoas-jangada e, dela, para as outras, para poder ter outros ângulos de filmagem. Algumas canoas são pilotadas por apenas um homem, a maioria dos casos; outras, por dois.
No início as canoas-jangada vêm juntas, quase que coladas umas às outras. Mas aos poucos, e dependendo do ritmo e da perícia de cada condutor (ou condutores), elas vão distanciando-se entre si. (Chico Carneiro)

Balsa “Boieiras”

Nesses labirintos líquidos, além de canoas, barcos, balsas que transportam o gado pelo rio, embarcações muito comuns no Estado que é o segundo maior produtor de rebanho bovino do país recortado com a geografia hidrográfica que o delimita. Essas balsas são conhecidas como “boieiras”, que a pronúncia cabocla transforma em “buieiras” (Coincidentemente, quando 1 ano depois fiz o filme do transporte de gado, foi que reparei que a balsa que filmei pro “Seu Didico...” foi a mesma balsa em que viajamos para fazer o filme sobre o transporte de gado).

Nos Caminhos do Rei Salomão

Na Amazônia Paraense, norte do Brasil, os barcos são o principal meio de transporte da população ribeirinha. Mais de 50.000 barcos compõem a malha de transporte fluvial, grande parte deles dedicando-se ao transporte de passageiros.
Este filme documenta a viagem de 36 horas do Navio-Motor “Rei Salomão”, que transporta passageiros e carga, entre as cidades de Belém (capital do Estado do Pará) e Anajás (no centro geográfico da Ilha do Marajó – a maior ilha fluvial do mundo, na foz do Rio Amazonas).
O documentário retrata a movimentação do porto no dia da partida do barco; a viagem e o cotidiano da tripulação e dos passageiros; a paisagem amazônica; as dificuldades da navegação; os problemas da população ribeirinha; a imparável destruição da floresta amazônica e aspectos da cidade de Anajás –que vive da extração da madeira, do palmito e do açaí, além de deter o maior índice brasileiro de pessoas afetadas pela malária.


Nas Barrancas do Rio Cariá

A série foi pensada para que o fio condutor de cada filme fosse a viagem de um determinado tipo de barco de modo a que aquilo que o barco transporta espalhasse, e espelhasse, a realidade (ou melhor: o recorte da realidade dado pelo seu olhar) da região. Nesse sentido a viagem teria que ser longa, de modo a que se tivesse tempo de "entrar" na vida dos personagens, os próprios tripulantes dos barcos. O tema deste quarto filme da série é a Cerâmica e por isso foi escolhida a região de Abaetetuba sendo uma região sobejamente conhecida como produtora de cerâmica, foi para ali que o seu irmão Amilcar (que além de fotógrafo e também cineasta gosta de pescar e conhece bastante bem a região das águas) dirigiu-se à procura de revendedores de cerâmica (a idéia inicial era focar sobre o transporte do produto). O Rio Cariá fica no baixo Tocantins, ele sempre foi um local de olarias (entre outros rios da região). A partir da cidade de Abaetetuba (uma das cidades onde o seu pai durante algum anos explorou a atividade de exibição cinematográfica) vai-se de rabêta numa viagem de cerca de 1 hora.  É um rio pequeno que deságua no rio Maracapucú, um dos rios afluente do rio Campopema que banha a cidade de Abaeté. Estávamos a procura de um barco que fizesse uma viagem mais ou menos longa para transportar ou telha, ou tijolo, ou pote, mas sem repetir os caminhos, ou melhor, os rios dos filmes anteriores. Chegamos a fazer contato com um barco transportador de telhas em Belém mas (felizmente) a viagem nesse barco não rolou. E o impacto visual da olaria do seu Badu, me fez mudar de ideia e centrar o filme na produção de potes e telhas - que eram os produtos ali fabricados - o que poderia fazer o gancho para a extração do barro e da madeira - para alimentar os fornos que "queimam" os produtos - e por extensão tocar na questão ambiental da destruição da floresta.

O processo de filmagem é simples: documentar o que vai acontecendo, sem uma ordem especial, ditado até pela maneira como as coisas são feitas. Por exemplo: o cara que trabalhava na prensa das telhas começava sua jornada, sob a luz de lamparina, às 5 da manhã. Então o primeiro dia de filmagem começou às 5 da manhã, filmando esse processo. Processo que filmei também com as primeiras luzes do sol, que foram as que utilizei no filme. À medida que vamos conhecendo melhor o processo de trabalho, e quem faz o quê, então as peças do quebra-cabeça vão encaixando-se, de modo a que tenha-se o registro completo de todas as fazes do processo produtivo. 
“Como o filme não tem roteiro, deixo "o rio me levar" mas sempre atento pros inúmeros acontecimentos que, se bobear, passam batido e a gente acaba perdendo um bom assunto. Então é preciso fazer parte do local e, sobretudo, ganhar a confiança e ficar amigo das pessoas que se documenta. Assim, ficamos morando na casa do seu Badu durante as 2 semanas de filmagem, comendo peixe com farinha e tomando banho no rio Cariá. Sem esse banho nas águas profundas de cada região o documentário fica inexoravelmente mais pobre, menos próximo da realidade.
Quanto aos personagens, isso é uma coisa curiosa porque cada um que é retratado acaba impondo sua personalidade. O que quero dizer é que eu não escolho os personagens, eles é que se impõem ao filme. Exemplifico: o seu Badu (que é o dono da olaria) não me parecia uma figura forte. Ele tem um falar lento e quando o entrevistei não gostei muito do resultado da entrevista. Porém quando fui editar o material vi que sua personalidade se impunha com tamanha força na entrevista - que tinha cerca de 40 minutos - que eu quis utilizar tôda a entrevista no filme e isso por sua vez me levou ao formato final do filme, onde a figura do seu Badu acabou ficando com uma relevância não pensada a quando da filmagens.

Um comentário:

  1. Os títulos corretos dos 5 filmes que compõem a pentalogia BARCOS DA AMAZÔNIA (fase 1), são:
    Filme 1 - Seu Didico: Paraense velho Macho!
    Filme 2 - Balsa Boieira!
    Filme 3 - Nos Caminhos do Rei Salomão
    Filme 4 - Das Barrancas do Rio Cariá
    Filme 5 - Pescadores de Água Doce.
    Obs.: Aquando da publicação acima pela revista PZZ o quinto filme ainda estava em fase de filmagem.
    Chico Carneiro, de Maputo, 13/7/2015.

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